O Diabo:esperto e experto!
Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)
Se alguém duvida da existência do Diabo
talvez seja porque nunca foi vítima de assaltos e estupros, roubos e
sequestros, mentiras e calúnias, torturas físicas e psicológicas – ou de
qualquer outra injustiça. Ou então uma pessoa que não tem filhos
drogados nem cônjuges alcoólatras. Alguém que não precisa passar horas,
dias e meses nas filas de espera ou nos corredores de um hospital. Por
fim – para não prolongar a ladainha e a procissão – quem ainda não foi
atingido pela corrupção generalizada e institucionalizada que oprime em
toda a parte.
Em matéria de maldade e depravação, o
ser humano parece não ter limites, superando qualquer outro animal. A
hecatombe perpetrada durante a 2ª Guerra Mundial por Hitler, sobretudo –
mas não só – à custa de judeus e de cristãos, amordaçando a consciência
de um povo culto e desenvolvido como era o alemão, prova que não estava
equivocado o rei Davi ao declarar: «Prefiro cair nas mãos de Deus, cuja
misericórdia é imensa, do que nas mãos dos homens» (1Cr21,13).
Ante o sangue derramado ao longo da
história – tanto que, até há poucos anos, o que ela narrava, eram
sobretudo guerras e de revoluções – e diante dos sete vícios capitais
que ofuscam e oprimem a existência e as relações humanas, parece difícil
negar a existência de uma raiz iníqua, uma fonte contaminada,
personificação do erro e do mal, numa palavra, do “Maligno”.
Sobre ele, a Igreja é sóbria e incisiva,
como atesta o “Catecismo da Igreja Católica”, publicado pelo Papa João
Paulo II, a 15 de agosto de 1997: «Por trás da opção de desobediência de
nossos primeiros pais há uma voz sedutora que se opõe a Deus e que, por
inveja, os faz cair na morte. A Escritura e a Tradição da Igreja veem
neste ser um anjo destronado, chamado Satanás ou Diabo. A Igreja ensina
que ele tinha sido anteriormente um anjo bom, criado por Deus».
Provavelmente, esta doutrina se
fundamenta num texto do Apocalipse: «Aconteceu uma batalha no céu:
Miguel e seus anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou
juntamente com seus anjos, mas foi derrotado, e no céu não houve mais
lugar para eles. Esse grande Dragão é a antiga Serpente, que seduz todos
os habitantes da terra» (Ap 12,7-9).
Para Jesus, duas são as definições que
melhor traduzem a identidade e a atividade do “Tentador”. Primeiramente,
ele é o “pai da mentira” (Jo 8,44), já que, ao longo da história, o que
ele melhor faz é enganar as pessoas: «No dia em que comerem deste
fruto, seus olhos se abrirão e vocês se tornarão como deuses, decidindo o
que é bem e o que é mal» (Gn 3,5). É o que ele continua fazendo todos
os dias, com experiência e resultados cada vez maiores...
Outra característica vista por Jesus no
Demônio é de ser “assassino desde o início” (Jo 8,44). De fato, se
existe na atualidade uma prova que mais fala da existência e do poder do
Diabo é o clima de maledicência, discórdia, violência e vingança que
medra em todos os ambientes e em toda a parte.
Na véspera de sua morte, Jesus rezou ao
Pai por seus discípulos: «Não te peço que os tires do mundo, mas que os
guardes do mal» (Jo 17,15). Na oração do “pai-nosso”, aparece o mesmo
pedido: «Não nos deixes cair na tentação, mas livra-nos do mal» (Mt
6,13). Em ambas as citações, “mal” e “Maligno” se identificam, já que
todos os que são levados pelo mal, o fazem porque seduzidos pelo
Maligno.
Costuma-se dizer que a grande vitória
alcançada pelo Demônio no século XX foi a de fazer crer que ele não
passa de uma invenção... «Se Deus não existe, tudo é permitido»,
escreveu Dostoiévski. Mas, se isso acontece com Deus, muito mais com o
Diabo. Ele age sorrateiramente, «disfarçando-se em anjo da luz» (2Cor
11,14), confundindo e invertendo os valores. O pecado passa a atrair
mais do que a virtude. A liberdade é transformada em devassidão. A
sabedoria é substituída pela esperteza. O dever pelo prazer. O ser pelo
ter. O amor pelo ódio.
Para o apóstolo São João, «quem comete o
pecado é escravo do Diabo – o pecador desde o princípio – mas o Filho
de Deus veio ao mundo para destruir as obras do Diabo» (1Jo 3,8). Quem
tem Deus, não teme o Demônio: «Se Deus é por nós, quem será contra nós?»
(Rm 8,31). O Diabo só existe e tem poder nas pessoas e ambientes donde
Deus foi banido...

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